RH em Pauta

3 de abril de 2020

O Brasil, as empresas e as lições do Covid-19 para as lideranças

*Por Guilherme Bagno Pires de Morais

Do ponto de vista jurídico, o pensamento abaixo desenvolvido, não é o mais adequado, já que no Brasil, país organizado como uma República Federativa, não se cogita a hierarquia entre o Presidente e os Governadores e nem tampouco entre esses e os Prefeitos, nos termos dos artigos 1º e 18º da Constituição Federal de 1998 (1).

Mas, como o preâmbulo da mesma Carta Magna, nos traz conceitos sinônimos àqueles que vem sido utilizados por empresas, como por exemplo, “a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento”, buscando-se a convivência em uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos”, como objetivo também, de várias organizações, tomemos a licença de exercer a liberdade de nossa imaginação, e comparar nosso País com uma grande empresa.

Nessa hipotética empresa, o Presidente do País seria o CEO e os Governadores dos Estados, seriam seus Diretores, aqueles diretamente ligados a ele, auxiliando na tomada de decisões, aconselhando conforme sua expertise, conhecimento específico, etc. E você, seria um líder dessa empresa. Qual a mensagem você estaria recebendo? Qual estaria passando ao seu time?

Guilherme Bagno é conselheiro ABRH-MG e senior partner do escritório Coimbra & Chaves Advogados.

Provavelmente, muitas dessas (e de outras) perguntas, estariam sem resposta, já que estamos vivendo um momento no qual cada “diretoria” corre para um lado, pensando em defender o seu “território” e não em atingir os objetivos outrora definidos para a sustentabilidade dos negócios. Por sua vez, o “CEO”, por “n” razões, não consegue unir o time em torno de um bem maior. E, convenhamos, esse não é um cenário hipotético na realidade das organizações.

Nossa experiência mostra que cenários de crise, como por exemplo um produto que não atingiu o retorno esperado ou um momento delicado de mercado, por exemplo, se não bem gerenciados, podem fazem surgir verdadeiros “silos” nas empresas, perdendo-se o foco no objetivo maior.

E qual é o papel da liderança nesse cenário? Atuar unindo seus times, movidos por um ideal, de acordo aos valores da empresa e sabedores da estratégia e da direção a ser seguida. É preciso ter FOCO! É preciso estar SEGURO! E isso vem através de experiências passadas, de dados objetivos e concretos e de antecipação aos problemas. Ou, no mínimo, rápida reação!

Em “Os 5 desafios das equipes – Uma fábula sobre liderança”, Patrick Lencioni, elenca que os membros das equipes que cultivam a confiança, dentre outras características, “concentram seu tempo e energia em questões importantes, não em política”. Ou seja, independente do certo ou errado, não se tem lado, se busca a SOLUÇÃO!

E a solução, adotada, não é certa ou errada. Ela é uma escolha, dentre opções identificadas, feita sempre conforme nossas necessidades de momento, e nossa realidade. Não é necessariamente aquela que funcionou para o outro… não é aquela solução pronta do google… Por isso, CRIE a sua solução! Estamos vivendo um momento inédito e por isso, temos de adotar soluções inéditas também! As busque, dentro do que é correto, do que é justo e adequado para o momento.

Como reflexão, apresentamos uma breve comparação trazida por Michael J. Sandel, em um dos mais prestigiados cursos de Harvard, transformado na obra “Justiça – O que é fazer a coisa certa”, quando ele coloca duas ideias opostas de justiça. Enquanto os utilitaristas consideram “o bem a maximização do prazer ou bem estar e procura o sistema de direitos mais adequado a sua realização (i), por outro lado, Kant defende que “o que é correto, tem primazia sobre o que é bom”.(ii)

Não estamos aqui, querendo discorrer sobre o conceito de justiça, obviamente. Apenas dizer que, nesse dilema do que é correto ou do que é o bem a ser feito, nossa sugestão é que você pense, no dia a dia do seu trabalho, se está querendo vencer uma batalha pessoal, fazendo política, ou se está fazendo a sua parte para que a empresa vença e atinja seus objetivos. E que, enquanto líderes, possamos exercer nosso papel, estando alinhados, em busca da solução.

E que aprendamos isso, bem rápido, pois, fazendo um paralelo com a Fórmula 1, estamos com o “safety car” na pista. A corrida está rolando, mas em outro ritmo. Cedo ou tarde, uma hora ele sairá. Nessa hora, uma coisa é certa, quem não estiver pronto, quem não tiver aproveitado o momento para se organizar, “encher o tanque” e “trocar os pneus”, ficará para trás.

Medíocre, tem como um de seus significados, algo que seja “comum, ordinário, trivial” (iii). Ora, não está na hora de sermos medíocres! Não mesmo! Em nenhum sentido. É hora de sermos líderes! De nós mesmos, de equipes, de departamentos, do País, do que quer que seja… Precisamos ser LÍDERES!

*Guilherme Bagno Pires de Morais é conselheiro ABRH-MG e senior partner do escritório Coimbra & Chaves Advogados. 

(1)  Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
Art. 18. A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição.

(i) Justiça – O que é fazer a coisa certa. Sandel, Michael J. Pág. 268. Civilização Brasileira. 12 ª edição.
(ii) idem
(iii) https://www.dicio.com.br/mediocre/