RH em Pauta

4 de agosto de 2020

Em tempos de pandemia, gestão de pessoas não é conversa, é ciência

*Por Marcelo Miranda

Sou um curioso da gestão de pessoas. Ao longo desses anos como gestor, aprendi muito com os profissionais de recursos humanos com quem tive a honra de trabalhar. Reconheço que muitos dos resultados e transformações que alcancei em minha carreira são porque consegui ter um modelo prático e humano de gestão de pessoas, graças ao talento desses excelentes profissionais de recursos humanos que me acompanharam. Com eles, a principal lição que aprendi é que gestão de pessoas não é conversa, é ciência.

A ciência tem uma base empírica, correto? Logo, ela necessita de dados para definir o que está funcionando e o que precisa ser alterado. Pois, cada vez mais, a gestão de pessoas tem se baseado em dados e informações concretas, e menos em opiniões e sentimentos. Desse modo, não existe gestão de pessoas sem foco em resultados. Se, a princípio, isso parece duro, devolvo a bola para você, caro leitor. Na gestão de pessoas, o indivíduo é o centro, certo? E tem resultado mais valioso do que o desenvolvimento individual, combinado com o desempenho coletivo? Sem resultados, não há como uma pessoa evoluir em sua vida profissional.

No contexto em que estamos vivendo, de uma crise sanitária global que impacta diretamente no funcionamento das empresas e na vida das pessoas, questões como essas podem parecer ainda mais duras. No entanto, elas precisam ser debatidas dentro de um contexto, em que a gestão de pessoas busca se adaptar às consequências da pandemia de covid-19. São muitas transformações em pouco tempo e o gestor precisa ter habilidade para dar acolhimento, atenção, tranquilidade e, ao mesmo tempo, conseguir que as equipes realizem o necessário, em condições completamente diferentes.

Sentimentos de medo e incerteza, além das restrições de circulação, são apenas alguns dos problemas enfrentados nesse momento, por gestores que podem não estar preparados para liderar. Porém, com o desenvolvimento profissional, eles caminham para uma posição que exige habilidade de liderança e gestão de pessoas. E ambos podem ser aprendidos.

No cenário atual, vale mencionar alguns dos papéis do gestor. O primeiro é a adequação do ambiente físico, isto é, realizar as adaptações das instalações de trabalho, em casos que não comportam o trabalho remoto. Não basta colocar um vidro de álcool em gel na recepção. É preciso avaliar, de forma real, a organização do espaço, de cada estação de trabalho, das distâncias, dos processos, dos fluxos, de forma a garantir que a performance seja segura.

Em complemento, entra em cena a gestão de equipes em trabalho remoto. Temos ferramentas digitais que permitem isso, e a adaptação é uma palavra de honra. Não podemos presumir que todos os colaboradores dominam toda e qualquer plataforma. É necessário prestar as devidas formações e gerenciar para garantir um ambiente digital produtivo.
Outra questão é entender que as pessoas sentem falta da interação. Nesse momento, a gestão de pessoas é fundamental e pode orientar sobre boas práticas para esses encontros. Gestores precisam ser inclusivos e tomar um cuidado extra para que todos participem, por exemplo, evitando fazer somente perguntas abertas a todos. O líder que entra em uma sala virtual com 30 pessoas e acredita que está tudo bem porque ninguém falou o contrário, está fazendo seu papel pela metade. Manter os encontros individualizados nesse momento de apreensão, é primordial para o bem-estar e o desempenho do colaborador.

O contato próximo entre líderes e liderados precisa ser uma relação de confiança, algo que só é obtido por meio da comunicação. Essa empatia poderosa permitida pela comunicação é parte fundamental da gestão de pessoas. Com empatia, podemos trabalhar a agilidade, a transparência e a horizontalidade na comunicação corporativa.

No entanto, são muitas tensões e novos sentimentos que surgem com a pandemia. Por isso, outro ponto que merece destaque é a preocupação com a saúde mental dos profissionais, pois está claro que a empresa invadiu a vida particular de todos quase por 24 horas. O sentimento de sobrecarga e fadiga mental é grande. Perguntas como: necessitamos mesmo dessa reunião? As pessoas estão conseguindo desconectar e descansar quando preciso? São novos cuidados nessa realidade.

Por fim, posso falar sobre a difícil tarefa que é tomar decisões quando o fator humano está envolvido. O papel do líder passa pela tomada de decisões que precisam ser mais objetivas e menos opinativas. Ou seja, quando falamos de escolhas empresariais, não podemos pensar somente em opiniões e achismos. Precisamos de dados e, claro, dos resultados. Em função disso, percebo cada vez mais que as empresas e os líderes têm repensado seus papeis na sociedade, com visões de como podemos contribuir com pequenas ações ou grandes transformações. Pois, é por estarmos em constante transformação que a gestão de pessoas se tornou uma das principais ferramentas para lidar com todas essas mudanças.

 

*Marcelo Miranda é CEO da Consolis Tecnyconta e conselheiro ABRH-MG