“Quanto mais presos ficamos à nossa forma de lidar com a vida, mais difícil se torna ressignificar as nossas verdades e adotar ações mais adequadas ao momento. Somos luz e sombra!”

*Sônia Mara de Oliveira

A minha intenção é compartilhar algumas reflexões sobre o comportamento humano, que acredito serem úteis para ampliar o nível de consciência de todos nós. Para iniciar, parto do pressuposto de que o acaso não existe, o que existe são consequências de algo que, consciente ou inconscientemente contribuímos para que aconteça.

Para ilustrar “sobre o viver e as escolhas” tema rico e complexo, busquei no livro “A Conquista Psicólogica do Mal de Heinrich Zimmer”, o conto “As babuchas de Abu Kasem”.

Abu Kasem era um riquíssimo comerciante de Bagdá, que tentava ocultar a sua riqueza usando babuchas velhas e esfarrapadas, que mesmo um mendigo se envergonharia de possuir. Certo dia, fez excelente negócio na compra de frascos de cristal e essências de rosas por uma bagatela. Abu Kasem decidiu fazer algo para si mesmo. Resolveu comemorar tomando um banho nas termas, o que há muito não fazia.

Lá chegando, tirou as horrendas babuchas e foi, em vão, aconselhado por um amigo a se desfazer delas, pois estava se tornando o bufão da cidade. No mesmo dia, o juiz da cidade também foi ao balneário. Quando Abu Kasem terminou o banho, não encontrou suas babuchas. Ele imaginou que aquelas que estavam no lugar das antigas eram presentes do tal amigo. Colocou-as e se foi. Quando o juiz saiu, encontrou as deploráveis babuchas no lugar das suas. O avarento foi acionado e obrigado a devolver o que não lhe pertencia, além de pagar grande quantia para não ser preso.

Irritado com as babuchas, resolveu desfazer-se delas, atirando-as pela janela. Elas caíram num rio e, dias depois, foram recuperadas por pescadores que, furiosos pelo estrago em suas redes, as atiraram com força, justamente ao passarem pela casa de Abu Kasem, pois sabiam que eram dele. Elas caíram sobre os frascos com a essência de rosas, causando grande prejuízo.

O avarento resolve, então, enterrá-las, mas seu vizinho observa-o cavando e imagina tratar-se de tesouros: denuncia-o às autoridades, pois tudo que fosse encontrado enterrado pertencia ao governo! Mais uma multa pesada, já que Abu Kasem não conseguiu convencer que o suposto tesouro eram apenas as suas velhas babuchas.

Inconformado, ele as leva para fora da cidade e as lança num lago. Resumindo: era o reservatório de água da cidade e elas entupiram os canos, dando novo prejuízo ao seu dono. O avarento, após pagar alta indenização, as recebe de volta e decide queimá-las, mas antes as deixa na sacada para secar. O cachorro do vizinho as atira para longe: elas caem na cabeça de uma mulher grávida, que passava pela rua. O choque a faz perder o bebê e, mais uma vez, Abu Kasem é responsabilizado e obrigado a pagar enorme quantia.

Desesperado, proclama ao juiz que as babuchas são a causa da sua ruína e pede que ele seja decretado inocente das próximas ocorrências funestas. O narrador oriental assim termina a história: “Abu Kasem aprendeu, pagando enorme preço, o mal que pode ocorrer a alguém que não troque as suas babuchas com a frequência devida.”

O conselho de não se converter em escravo da avareza seria a única reflexão deste conto? Creio que não! Este vai além da simples conclusão de que pagamos pelos nossos atos, pois revela um entrelaçado de coisas e pessoas manipuladas pelo acaso que se torna difícil de esquecê-lo .

Chamamos a atenção para que todo hábito e prática fundem-se, num mesmo padrão, com o nosso próprio ser. As babuchas significam tudo aquilo de que não abrimos mão, a fonte de realização. Aquela parte da nossa psique que construímos ao longo da vida como mecanismo de adaptação ao contexto e que se torna o nosso guia mental. A máscara social bem ajustada, praticamente fundida ao nosso rosto quase imperceptível e que em muitos casos nos orgulhamos dela. Mais que isso, constituem os impulsos tangíveis de seu inconsciente e em virtude dos quais se tornou uma personalidade social. A soma vital daquilo que lutou durante a maior parte da sua vida .

As babuchas representam para o mundo a personalidade de Abu Kasem e sua sovinice, inconscientemente, representam para ele também sua maior virtude, a mais conscientemente cultivada, sua avareza de mercador. Se tudo isso o fez caminhar pela vida, detém sobre ele um poder maior do que supõe.

Abu Kasem agia com as suas babuchas de modo tão inflexível e obstinado como com seus negócios e sua fortuna. As duas faces de uma mesma moeda. Era tão apegado à pobreza quanto à riqueza, e as babuchas serviam para ocultar a prosperidade.

São significativas as passagens da história, quanto mais Abu Kasem queria se livrar das babuchas mais elas voltavam a lhe perseguir. Mesmo quando está inclinado a destruí-las continua magneticamente ligado a elas. É um vício e ao mesmo tempo uma virtude irremediáveis que o atraem e lhe geram prazer e sofrimento.

Abu Kasem é uma dessas pessoas que não se deixa fluir com o tempo: agarrando-se as suas conquistas ou forma de pensar e agir, com o objetivo de manter o ego que construiu. Prendeu-se avidamente ao que conquistara pensando ser esta sua razão de ser. E aí a desgastada personalidade que poderia ter sido renovada anualmente, como as folhas das árvores, colou-se a ele de tal forma que não consegue mais desprendê-la; mesmo quando esta se converte numa armadilha fatal. Quando o sino tocou avisando a hora de mudar, como na história de Cinderela, os seus ouvidos estavam surdos – e isso foi há muito tempo.

O desejo de livrar-se daquilo que o incomoda e lhe traz transtorno o transformou em prisioneiro de si mesmo. Porque não podemos nos livrar de nós mesmos. Tudo o que pensamos, fazemos e sentimos está inscrito na memória implícita e portanto guia invisível das ações.

Como sair desta situação? A libertação está em ampliar o nível de consciência, pois a mudança tem de originar-se dentro do próprio criador. Quanto mais presos ficamos à nossa forma de lidar com a vida, mais difícil se torna ressignificar as nossas verdades e adotar ações mais adequadas ao momento. Somos luz e sombra!

E é por meio do desprendimento a respeito das nossas verdades que ampliamos a consciência sobre o nosso funcionamento e dos outros.

Abu Kassem somos todos nós e precisamos saber de que são formadas as nossas “babuchas”, e somente, assim poderemos identificar quando nos libertar daquilo que não nos serve mais. Sabemos que pode ter sido útil em algum momento da nossa existência; mas não são mais.

Sugiro que identifique aquilo que existe em você que é mais elogiado como: trabalhar demais; cuidar das pessoas; força para buscar o novo; não se deixar abater e outras características, pois podem ser as suas “babuchas” . Ressalto que na medida em que alguém consegue libertar-se das suas verdades libertar-se-a de todas as coisas que parecem acidentais ou ocasionais.

Faça um exame de consciência e atente para si, pois assim, culminará com o famoso “Conheça a ti mesmo”, o “Domine a si mesmo” e Transforme a si mesmo.

Perceba e observe os sinais que a vida lhe dá! Vivemos em dois mundos interconectados: o externo e o que acontece dentro de nós; o diálogo generoso entre estas duas partes é que amplia o autoconhecimento e, consequentemente, contribui para que nos tornemos mais sábios.

Quando faz algo que gera transtornos a você, ao outro, às relações ou à natureza, está na hora de mudar. Quando não consegue desfrutar das suas conquistas, provavelmente esteja usando os sapatos errados que não servem mais para caminhar.

Ouça o sino tocar! Lembre-se a magia do suposto sucesso tende a acabar.

*Sônia Mara de Oliveira é  psicoterapeuta e coach.

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