Imprensa

Quando o cargo sobe à cabeça, a carreira começa a cair

O cargo impressiona. O título impõe. O crachá abre portas. Mas nada disso garante grandeza. No mundo profissional, a ascensão costuma vir acompanhada de um risco silencioso: confundir posição com identidade. Quando isso acontece, a vaidade deixa de ser detalhe e passa a comandar decisões, relações e comportamentos, quase sempre de forma destrutiva.

Competência técnica e currículo sólido são importantes, mas insuficientes para sustentar uma trajetória de êxito. O que separa carreiras duradouras de trajetórias infladas e curtas é a capacidade de lidar com o próprio ego. Cargos são temporários. Hoje gerente, amanhã diretor, depois fora do organograma. Essa consciência não diminui ninguém, pelo contrário, protege a lucidez.

O problema não está na ambição, afinal ela é o motor. O risco surge quando o profissional se apaixona mais pela cadeira do que pelo propósito. É nesse ponto que respeito vira medo, liderança vira autoritarismo e reconhecimento vira dependência. Ninguém é o cargo. As pessoas apenas ocupam funções por um período, a serviço de algo maior: resultados, pessoas, impacto e legado.

A verdadeira autoridade não nasce do organograma, mas se constrói na postura. Em ambientes competitivos, humildade não é fraqueza, mas sim segurança emocional. Quem é seguro não precisa gritar, humilhar ou diminuir ninguém para se afirmar. Lidera com escuta, faz perguntas difíceis, compartilha méritos e assume erros sem terceirizar responsabilidades. Isso não fragiliza a liderança, mas fortalece; e é tão bom quando deparamos com este cenário; não é mesmo?

Escutar, aliás, é uma das habilidades mais negligenciadas no mundo corporativo. Ouvir de verdade, sem interromper, sem julgar, sem preparar a resposta enquanto o outro fala exige maturidade. Profissionais sábios não entram em uma sala para provar que estão certos, mas para compreender melhor o contexto e decidir com mais justiça. Quem só fala aprende pouco e quem escuta, cresce.

O tempo é implacável com a vaidade e generoso com o caráter. Cargos passam. Salas mudam. Organogramas se redesenham. O que permanece é a memória deixada: como você tratou as pessoas, como conduziu decisões difíceis, como se comportou quando não havia plateia. O êxito profissional pode até abrir portas, mas é o caráter que garante que elas permaneçam abertas. Desta forma, a pergunta que define uma carreira não é qual cargo você ocupou, mas quem você se tornou enquanto esteve nele. Quando o título cair, o que ainda ficará de pé?

 

David Braga

David Braga

CEO, board advisor e headhunter da Prime Talent, empresa de busca e seleção de executivos, presente em 30 países pela Agilium Group. É conselheiro de Administração e professor convidado pela Fundação Dom Cabral, presidente da ABRH MG e Presidente do Conselho de Administração do ChildFund Brasil. Instagrams: @davidbraga | @prime.talent

Últimas Publicações