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Emprego não nasce de narrativa

O debate sobre a jornada 6×1 no Brasil ganhou força e expõe um tema legítimo: qualidade de vida, saúde mental e equilíbrio entre trabalho e descanso. Ao mesmo tempo, ele precisa ser tratado com maturidade e profundidade. Reduzir essa discussão a uma simples oposição entre empresa e trabalhador empobrece o debate. Há setores, como varejo, serviços e indústria, cujas operações exigem escalas contínuas, e qualquer mudança precisa considerar produtividade, custo, empregabilidade e sustentabilidade do negócio. Isso não significa ignorar o avanço necessário, mas sim reconhecer que soluções duradouras passam por diálogo, flexibilidade e adaptação setorial, e não por decisões genéricas. O desafio real não é apenas reduzir dias de trabalho, mas construir modelos que equilibrem a competitividade das empresas com a qualidade de vida das pessoas.

Há uma narrativa que tem ganhado força, e ela é simples, direta e perigosa: a de que quem emprega é o vilão. Em um cenário de insatisfação, incerteza e pressão social, é muito mais fácil apontar o dedo para quem está visível do que compreender o sistema que opera por trás. E é exatamente aí que essa narrativa se sustenta. Ela simplifica um problema complexo e cria um inimigo claro. Mas, quase sempre, o problema não está onde parece.

Claro que existem excessos. Há empresas mal geridas, lideranças despreparadas e decisões equivocadas. Mas transformar exceção em regra é um erro e, até, uma estratégia. Porque, quando se coloca o foco só em quem emprega, deixa-se de discutir o que realmente impacta a geração de oportunidades: carga tributária elevada, ambiente burocrático difícil de navegar e instabilidade regulatória que gera insegurança constante.

Empreender no Brasil não é simples, não é confortável e, definitivamente, não é um privilégio garantido. É assumir riscos todos os dias. É lidar com pressão financeira, incerteza de mercado, responsabilidade sobre pessoas e tomada de decisões que impactam diretamente a vida de outros. Quem está à frente de um negócio não administra apenas números, administra expectativas, desafios e, muitas vezes, limitações que não controla.

Aqui entra uma reflexão: se é tão fácil empreender, por que nem todos fazem isso? Porque, na verdade, não é. Exige coragem, resiliência, preparo e disposição para enfrentar um cenário nem sempre favorável. Ainda assim, há milhares que escolhem esse caminho. Que investem, geram renda, criam oportunidades e mantêm empregos mesmo em contextos adversos.

Isso não significa que não haja espaço para melhorias, ajustes ou críticas; pelo contrário. Um ambiente saudável precisa de diálogo, equilíbrio e responsabilidade de todos os lados. É preciso cuidado com narrativas simplistas que dividem em vez de construir. Quando se cria uma visão distorcida, perde-se a oportunidade de discutir soluções reais.

Quando essa lógica se instala, ninguém ganha: nem quem emprega, nem quem trabalha. O ambiente se torna mais hostil, menos colaborativo e menos produtivo, e o impacto recai sobre toda a sociedade. Por isso, talvez a pergunta mais relevante não seja quem é o vilão, mas o que precisa ser ajustado para que o país gere mais oportunidades com equilíbrio e sustentabilidade. Esse debate precisa sair da superfície e ganhar seriedade. Não basta escolher lados ou repetir narrativas fáceis; é necessário compreender as causas reais e cobrar soluções estruturais. Se queremos mais qualidade de vida, mais empregos e um ambiente econômico saudável, a cobrança deve ser direcionada a quem define as regras do jogo: políticas públicas mais eficientes, simplificação tributária, redução da burocracia e elevação da previsibilidade jurídica. Sem isso, qualquer discussão será sempre parcial.

O Brasil não precisa de mais polarização, precisa de maturidade. E a reflexão que fica é: estamos cobrando de quem realmente tem o poder de transformar esse cenário?

David Braga

David Braga

CEO da Prime Talent Executive Search e presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-MG)

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