RH em Pauta

18 de julho de 2019

Empatia – sempre presente

“E como podemos desenvolver a empatia? A literatura nos fornece inúmeras formas mas, a meu ver, não é uma questão de técnica e sim de postura, um posicionamento na vida.”

*Artigo por Thelma Teixeira

 

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania de ter fé na vida.

Fernando Brant e Milton Nascimento.

 

Estamos vivendo predominantemente uma era muito conturbada carregada de problemas, violência, estresse e falta de solidariedade especialmente com grupos historicamente vulneráveis socialmente.

Digo predominantemente porque ao mesmo tempo vemos movimentos de pessoas dedicando-se incansavelmente a belas causas humanitárias, mas sabemos, são minoria.

Diante disso falar de empatia pode parecer ingênuo ou até utópico. Acontece que nós psicólogos temos “a estranha mania de ter fé na vida”.

Felizmente não são só os psicólogos. No Fórum ABRH-MG ocorrido no dia 2 último, vários palestrantes de diferentes formações falaram da importância da empatia. A palestra Inteligência Emocional, do Tenente Pedro Ahiara, porta-voz dos Bombeiros de Minas Gerais na tragédia em Brumadinho destacou empatia teoricamente e, naturalmente com exemplos práticos de sua primorosa atuação.

Sua fala dizendo que continuarão a busca até localizar todos os corpos pois “não estamos procurando cadáver mas ajudando na dignidade das pessoas” diz tudo sobre empatia na prática.

Se consideramos a etimologia da palavra, o que sempre nos ajuda, vemos que sua origem é grega, empatheia, onde o en significa “em” e pathos “emoção, sentimento”. Portanto empatia é estar dentro do sentimento alheio. Usando uma palavra mais alinhada aos tempos atuais, é estar em conexão com o sentimento do outro.

Nos anos 90, as descobertas da neurociência, do sistema neural, denominado neurônios-espelho, revelou que temos capacidade de compreensão imediata da experiência emocional do outro porque identificamos a mesma experiência em nós mesmos.

Por um tempo definíamos empatia como a capacidade de se colocar no lugar do outro e sentir como ele sente. Porém, esta definição, a meu ver, tem um aspecto não desejável pois não é possível, e tampouco saudável, uma pessoa sentir como o outro se sente. Isto seria confundir a si mesmo com o outro. O que podemos fazer é buscar em nós um sentimento ou uma situação semelhante à do outro e entrar em conexão com ele. É um processo de compreensão da situação vivida pela outra pessoa.

Uma situação que vivi me fez refletir com um viés diferente e exemplifica o que escrevi acima. Levei um tombo e sofri um entorse no joelho. Meu professor na academia, Yuri Lopes, me orientou a fazer alguns exercícios específicos. Ele havia passado por uma cirurgia de joelho e portanto teve uma experiência similar à minha, de muitas dores. Os exercícios recomendados geravam muita dor e me queixei com ele. E assim ele respondeu: “Não tenho dó de ninguém”.

Imediatamente pensei: “Que falta de empatia.” E estranhei seu comportamento pois é uma pessoa sensível aos outros. E disse a ele: “Não estou te entendendo”. Ele então me falou que sabia que como ele tinha passado por isto e superou, todas as pessoas também podem fazê-lo.”

É isso. Um outro viés da empatia. Como escrevi anteriormente: busca de um sentimento ou uma situação semelhante à do outro e entrar em conexão com este outro.

Em recente reunião do Projetar, grupo do qual faço parte, assistimos ao vídeo “O poder da Empatia”, disponível no YouTube, e uma das conclusões é que empatia é uma escolha e uma escolha vulnerável. Porque para me conectar a você, eu tenho que conectar com algo em mim que conhece esse sentimento.

A autora diz que empatia é como um espaço secreto. Como se alguém ficasse em um buraco profundo e gritasse de lá: “Estou preso, está escuro, estou sufocado. Então nós olhamos, descemos e dizemos: eu sei como é estar aqui e você não está sozinho.”

E como podemos desenvolver a empatia?

A literatura nos fornece inúmeras formas mas, a meu ver, não é uma questão de técnica e sim de postura, um posicionamento na vida.

O pressuposto é gostar de pessoas. Isto significa ter interesse de conhecer e de interagir com os outros. Não somente daqueles que parecem comigo e com os quais temos afinidade mais imediata, mas também do diferente.

Conhecer sobre emoções e sentimentos e ter abertura para compartilhá-los com quem queremos nos conectar. Estar aberto para experiências pessoais e aprender com elas. Ouvir as pessoas pondo foco no que os outros estão dizendo para compreender o que se passa com elas, evitando julgamentos.

Se desejarmos adotar esta postura de vida, teremos grandes chances de sermos empáticos espontaneamente e consequentemente aprimorar o relacionamento.

Concluo com um poema de Jacob Levy Moreno (1889-1974), criador do Psicodrama, escrito quando ele tinha 20 anos e que também foi citado no Fórum ABRH-MG

Convite ao Encontro
“um encontro entre dois: olho no olho, cara a cara.
E quando estiveres próximo, tomarei teus olhos
E os colocarei no lugar dos meus, e tu tomarás meus olhos
E os colocará no lugar dos teus,
Então te olharei com teus olhos
E tu me olharás com os meus”.

Uma bela metáfora para empatia. É o que precisamos ter sempre presente.

 

*Thelma M. Teixeira é psicóloga, psicodramatista e conselheira da ABRH-MG.